your actual page is starting */ body { background-color: black; } .header { background-color: #3366cc; border-bottom: 2px solid blue; } h1 { font-family: "Trebuchet MS", Helvetica, sans-serif; font-size: 25px; color: white; padding-left: 57px; padding-top: 15px; padding-bottom: 10px; } .leftedge { background-color: black; } h3 { font-family: "Tahoma", sans-serif; font-size: 15px; color: blue; padding-top: 20px; } .date { padding-left: 20px; padding-bottom: 2px; border-bottom: 2px solid #996699; } blockquote, p { font-family: "Tahoma", sans-serif; font-size: 12px; color: white; line-height: 18px; } .postinfo { font-size: 10px; font-style: italic; padding-bottom: 7px; padding-left: 15px; } .rightbar { background-color: #3366cc; border-left: 2px solid blue; border-bottom: 2px solid blue; padding-left: 15px; padding-right: 5px; padding-bottom: 30px; padding-top: 20px; } .blogarchive { color: #ff9900; } a:link { color: blue; } a:visited { color: white; } a:hover { color: red; } /* end of the style definition */




Trilhando quatro caminhos espirituais Toca | Envie sua missiva
     

terça-feira, setembro 30, 2003

 
Senhora do Fogo

Yá olhava fixamente para uma águia no céu. A Caçadora não perdia tempo tentando sussurrar para se comunicar com a águia pois já havia ultrapassado essas pequenas limitações. Comunicava-se com seus pensamentos que eram perfeitamente entendidos pelo animal, e obedecidos por respeito e temor.
Yá se preocupou em enviar a águia como mensageira para algo bem maior. Sua autoridade como Filha de Oxóssi permitia que Yá pedisse alguns favores de suas presas.
Após algumas horas em que a águia já havia sumido a muito do céu, Yá pôde observar um enorme Condor voando em sua direção. Fez a saudações a seu orixá agradecendo pela benção.
O Condor pousou e fechou as asas junto ao corpo cinzento. Uma conversa sem palavras foi estabelecida entre ambos e Yá sorriu de sua própria piada interna. Curioso como o destino havia colocado Kumai novamente em seu caminho, mas desta vez como uma doce presa assustada e esquiva. Seria extremamente divertido caçá-lo e ver o poderoso e sedutor filho de Xangô fugir com o rabo entre as pernas.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Franco navegava suavemente próximo ao chão enquanto Voz da Terra, pendurado à borda da nave, procurava os corpos escondidos na noite.
O brilho das estrelas iluminava mal o matagal que cobria todo o redor da nave, porém, os olhos do elfo atravessavam o manto da noitecom certa facilidade.
Voz saltou do navio e aterrissou como um gato no chão, rodeando uma enorme massa de carne mal cheirosa.
O morto vivo está aqui... o Wyvern deve estar mais adiante
Harumi desceu da nave seguida por Franco.
Voz da Terra e Brisa se afastaram entre meias palavras, dizendo ter algum trabalho a fazer, e sumiram na escuridão da noite sem lua.
A feiticeira observava o corpo inerte do cadáver com as pernas desmanchadas pelo impacto com o solo, porém, os dedos do monstro ainda se moviam ocasionalmente e seu maxilar tremia como se pertencesse a um mendigo numa noite de inverno.
A Conjuração que animava esta coisa ainda está ativa. Acredito que ele vá se restituir em breve.
Harumi franziu a sobrancelha procurando lembrar-se de algo que pudesse ajudá-la nas aulas que viu. Nunca se interessou por necromancia. A própria idéia de tocar num cadáver já lhe era bastante repugnante.
A Elfa Hijin uniu os dedos em direção a criatura enquanto reforçava em sua mente os símbolos sagrados que lhe permitiam abrir o terceiro olho para coisas místicas. Os veios de energia negra emanavam dos músculos apodrecidos e confirmavam a natureza clara da Conjuração: Necromancia. Harumi fixou sua atenção o máximo que sua mente confusa permitia naquele momento e procurou seguir o fluxo de energia como um ranger segue um rastro de grama pisada.
Sacou sua arma e levantou com a ponta da lâmina do Sai o turbante do monstro, revelando uma pedra negra, talvez mais que negra, era como se a pedra sugasse a parca luz que estava a sua volta.
Num movimento rápido, a ponta da lâmina foi cravada na fronte do Morto e a Gema foi arremessada pro alto, caindo nas mãos de Franco.
Esse artefato infernal encontra seu fim aqui e agora… bom trabalho Elfa.
De forma alguma…
Harumi arrancou a pedra das mãos de Franco pegando o Paladino de surpresa e fechou os dedos em torno da mesma.
Não há motivo nenhum pra não usá-la a nosso favor. Eu vou estudá-la e decido o que faço ou deixo de fazer.
Algo que traz a vida um demônio como este não pode continuar existindo, seja razoável Harumi.
A Elfa sorriu, sacando ambos os Sai
Se quiser a pedra, vai ter que arrancar de mim à força.
Franco abaixou a Cabeça contrariado e resmungou
Você sabe que não poderia levantar a mão contra uma inocente por causa dessa pedra. Se são estes seus termos, guarde-a, mas eu estarei vigiando se a energia dela vai ser usada novamente para esse tipo de magia
Disse, apontando o dedo pra criatura disforme espalhada pelo chão.
Harumi sorriu em um tom de escárnio e se virou em direção a nave
Vá procurar sua espada Paladino....
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Voz da Terra movia-se em volta da fogueira, meio que numa dança, meio que correndo. Brisa se esforçava para manter-se calmo, porém os vultos que rodeavam a fogueira e crepitavam como pequenos serzinhos nas labaredas, faziam-no ter a plena certeza de que não estava só, e de quê alguém estava discutindo sobre seu futuro.
Eu te apresentei a eles. Um espírito maior do fogo se voluntariou a tratar do assunto diretamente com você. Seja humilde e tenha fé que tudo dará certo.
Das labaredas, braços de fogo armados com lâminas incandescentes se dirigiam de forma sarcástica a Brisa. Uma figura humanóide, que aparentava se esforçar pra manter essa forma, serpenteou pra fora das labaredas e levantou-se, mostrando um porte superior a qualquer coisa que Brisa havia visto até então.
Pequena criança. Cedo pra você querer se perder.
Brisa ajoelhou-se diante da figura imponente e engoliu seu orgulho, garganta seca abaixo
Eu pretendo voltar atrás, reconstruir da forma como for preciso... não sabia exatamente o que fazia, mas pretendo consertar se assim me for permitido.
Tudo pode ser negociado quando tratamos de um coração arrependido. Dizer que não sabia o que fazia é quase uma afronta, pois fez o serviço muito bem para alguém que alega ignorância. Ainda assim, o trabalho que fará a mim e a si mesmo será do tamanho de suas afrontas.
E qual será a punição?
Um Homem de sabedoria há muito perdida está causando problemas iguais aos seus. Sua alma se tornou negra e sem brilho, e ele já ultrapassou a linha onde não existe mais interesse em arrependimentos.
Será uma grande lição pra ele descobrir que o poder sempre tem limites. Será também uma lição pra você perceber até que ponto você pode descer.

Obrigado pela chance. onde encontrarei ele?
Faz parte da sua missão, mas não será difícil. E assim que fizer sua parte no grande plano, seus ensinamentos nos mistérios poderão continuar
Brisa levantou-se e limpou a grama molhada dos joelhos... sorriu internamente imaginando que, afinal de contas, o pior já havia passado.




Senhora do Fogo


sexta-feira, agosto 01, 2003

 
Lembranças

Os braços de Franco tremiam enquanto ele tentava fixar a mira num ponto vazio do céu. Contava que o Wyvern tentaria uma nova investida, saindo de baixo do casco da nave para evitar que Harumi o percebesse. Se por acaso viesse por cima, a elfa dourada talvez conseguisse perceber o ataque a tempo de evitar as garras do monstro.
A cada solavanco, Franco se arrependia da cerveja que havia bebido com o dançarino e forçava seu estômago a controlar a ânsia que sentia. Ouvia os gritos dos companheiros no convés, mas sentia que apenas ele poderia dar cabo da fera voadora.
A besta permanecia armada quando o Wyvern surgiu debaixo do casco, apesar de seus reflexos entorpecidos pela bebida, o paladino mirava em direção a cabeça do dragão.
Franco treinava tiro quatro horas por semana nos tempos que vivia no mosteiro dos homens puros da inquisição, e acreditava que poderia acertar mesmo nessas condições.
A seta deslizou por entre as fortes rajadas noturnas de vento e errou seu alvo, acertando a asa direita do dragão e abrindo um furo ao passar através dela.
A criatura guinchou e recolheu a asa. Seus guinchos mudaram de agonia a desespero quando começou a despencar e abriu-a novamente, porém o ferimento a impedia de mantê-la aberta. Seus guinchos ecoavam nos ouvidos de todos enquanto o monstro lentamente, brigando com sua própria asa para mantê-la aberta, ia sumindo na escuridão
Brisa se esgueirou por trás do morto vivo contando com Kumai para atrair sua atenção. O Bardo lançava chamas e Voz da Terra atirava flechas no rosto do Assírio. Sua pele e sua carne derretiam com o calor, porém suas pernas continuavam a se mover indiferente ao fato que seu corpo estava sendo destruído.
Kumai se aproximou tentando atraí-lo, porém, a súbita velocidade do monstro o pegou desprevenido. A criatura agarrou seu braço e puxou o corpo do bardo com sua força descomunal e rangeu os dentes permeando o ar.
Brisa correu até a corda que prendia a âncora e lançou sobre o pescoço do morto vivo, dando uma volta em torno deste, correu até a alavanca para soltar a âncora e arremessar o vilão, porém iria matar o bardo também.
O Bardo tentou afastar o corpo dos dentes da fera, mas não tinha força pra tanto, gritou, socou o peito do morto vivo em vão e levantou as chamas que já queimavam sua carne o mais forte e intenso que pode, mas a criatura se recusava a cair.
Porém o braço da mesma explodiu, e permitiu que o bardo se afastasse e olhasse pra trás. Vendo Voz da Terra com a mão estendida e fumegante em direção ao assírio.
Brisa, a âncora!
O Meio elfo puxou a alavanca que soltou a âncora, arrastando consigo a corda, que arrastou consigo o corpo do assírio que foi arrastado pelo convés até a borda e despencou para juntar-se ao Wyvern.
Como você fez isso Voz? Quê espírito que te concedeu este favor?
Brisa perguntava assustado e empolgado com as habilidades que Voz demonstrava cada vez mais.
Não sei. Mas sei que espírito algum estava comigo neste momento.
Você já fez isto antes?
Que eu me lembre não.
Harumi surgiu correndo entre eles e ajudou Kumai a se levantar. todos estão bem?
Eu sinceramente poderia estar numa situação mais agradável, mas não posso dizer que estou gravemente ferido, apenas atordoado. Mas agradeceria se uma boa alma pudesse auxiliar-me a sair daqui.
Franco procurava manter-se calmo enquanto os companheiros subiam pelas cordas para soltá-lo.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Franco sentou-se apoiando as costas num barril d´água e suspirou enquanto procurava traçar o plano de ação do grupo
Mortos vivos como aquele não tem mente própria, são utilizados como ferramenta de ataque. O que significa que alguém, provavelmente algum Assírio, está atrás de nós.
Não apenas atras de nós, como também atrás do mapa, mais um motivo para seguirmos o mais rápido possível, porem com o dobro da cautela.
Voz da Terra permanecia dependurado como um gato, olhando a corda da âncora, tentando distinguir na escuridão da noite se o Assírio ainda estava preso ao Fallacia.
Eu falo com espírito do morto e encontro quem quer mapa. Preciso também fazer algo pro Brisa, e tem que ser lá embaixo.
Harumi franziu a sobrancelha deixando claro que desaprovava qualquer atraso a viagem.
Podemos perder tempo precioso se descermos agora e ficarmos procurando os corpos, está escuro e talvez só encontremos algo pela manhã.
ainda assim, é interessante saber quem está atrás de nós. Ainda que seja apenas para tomarmos cuidado onde estamos nos metendo. Alem do mais, quero minha espada de volta.
Espero que sua espada valha perdermos quase um dia de viagem. Se chegarmos aos portos, e o mapa já tiver sido passado adiante…
Harumi respirou fundo, controlou-se, virou as costas e trancou-se dentro da cabine.
Brisa limpava a ferida no braço de Kumai e sentiu-se incomodado ao citarem seu nome.
O que eu deverei fazer lá embaixo Voz?
Pagar sua dívida.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Harumi trancou a porta atrás de si para garantir o mínimo de privacidade, retirou duas pequenas estatuetas da mochila, uma tigela de barro, um pergaminho enrolado em seda vermelha e dois bastões de incenso de canela.
As estátuas se assemelhavam a guerreiros élficos com armaduras de tiras e preparados para batalha, A Elfa abriu o pergaminho e recitou uma pequena prece entre os lábios enquanto acendia o incenso no lampião preso a parede.
Que os espíritos de meus ancestrais me auxiliem a encontrar os caminhos que me foram designados. E me lembrem dos motivos que me trouxeram ao local onde estou agora.
Harumi fechou os olhos e deixou que as imagens invadissem sua mente. As visões percorriam pelo passado conturbado da elfa. Procurando treinamento em magia, escondida de seus pais.
Sua família era descendente direta do fundador de seu clã, o clã do escorpião. E isto trazia enormes responsabilidades aos seus filhos.
Entre os Hijin, a forma como os Elfos dourados chamam a si mesmos, O Seu clã era conhecido pela arte da intriga e pela incumbência de fazer aquilo que era necessário, mas não poderia ser feito pelos de sangue real.
Entre a família dos Bayushi, a primeira filha nascida era, invariavelmente, enviada para a escola de Cortesãs. Porém, a idéia de viver a vida da nobreza, utilizando o corpo e a beleza como arma, nunca atraiu harumi. Desde pequena ela corria como o vento, passava horas observando os monges treinando katas e sonhava em tornar-se senhora do ar e voar como faziam os estudantes da escola Soshi de Shugenjas. Harumi era bela e sedutora, mas não carregava consigo a inclinação a traição e a mentira, que eram naturais e incentivadas na vida de uma cortesã.
A elfa procurou de todas as maneiras ao seu alcance livrar-se deste legado. Procurou convencer seus pais que tornando-se uma Shugenja na escola Soshi, poderia compensar com conhecimento e misticismo as habilidades que aprenderia como cortesã.
Seus pais diziam que este não seria seu futuro, que as tradições da família Bayushi eram claras. A primeira filha aprenderia etiqueta e sedução. Aprenderia a mentir da forma mais sincera possível e a fazer com quê seus inimigos falassem aquilo que não pretendiam dizer. Aprenderia a evitar assuntos polêmicos, nem concordando nem discordando para manter sua imagem pra ambas as partes, e sobretudo, aprenderia a conhecer as fraquezas de seus inimigos e a utilizá-las contra eles.
Este seria seu legado como Bayushi, mas Harumi conhecia a si mesma e não acreditava em sua capacidade de dissimulação. Harumi via para si um futuro diferente, tornar-se um mero objeto decorativo da corte, ser escolhida como esposa por um Samurai de pouca ambição, mais interessado numa mulher ornamental do quê uma companheira. E Em breve, Harumi deixaria de ser um indivíduo para tornar-se uma posse, uma propriedade de alguém.
A elfa Hijin não esperou que seu treinamento como cortesã terminasse e sua mão fosse prometida a algum Samurai qualquer. Também não esperou que um Belo Elfo surgisse sobre um cavalo branco e a levasse pra longe desta vida de mentiras e decepções.
A Elfa utilizou de suas aulas como cortesã, engoliu seus escrúpulos e convenceu um estudante Soshi a dividir com ela seus conhecimentos, utilizando de todas as promessas de recompensas físicas que ela pôde, ainda que se esquivasse de todas as oportunidades de cumprir essas promessas.
Quando isto já não era mais o suficiente, Harumi utilizou de seus parcos conhecimentos em ilusões para permitir sua entrada na Escola Soshi como uma visitante. Não podia assistir a todas as aulas, mas pôde dedicar seus estudos as artes que mais lhe atraiam. Ar, Mente, Água, Teorias Místicas, Tempo...
Seus conhecimentos acerca do mundo aumentavam na mesma proporção que seu péssimo desempenho na escola de cortesãs atraía a atenção de sua família.
Seu pai, Bayushi Maru, um senhor rigoroso porém complacente, chamou sua filha para conversar e decidiu que sairia desta conversa com uma justificativa e uma solução para o problema.
O restante da família, receosos da severidade do pai e da personalidade difícil de Harumi, temia que nada de bom sairia desta discussão.
Após quatro horas, Bayushi Maru saiu da sala e anunciou a família que harumi iria viajar para o ocidente em missão secreta para o clã do Escorpião, e que só voltaria a terra dos Hijin quando a viagem tivesse alterado sua perspectiva do mundo e lapidado sua mente juvenil e fantasiosa em dedicação e vontade para com os afazeres dos Bayushi.




Ancestrais



domingo, junho 15, 2003

 
Um por todos

Brisa dormia profundamente, encolhido num canto perto da caldeira, estava desacostumado a dormir sem Furioso e sentia mais frio que os outros. Rolava de um lado para outro murmurando resmungos incompreensíveis para Harumi que estava ao seu lado, mas acordada. A elfa sentiu um pressentimento ruim durante a noite e tentava se acalmar banhando os pés em água quente quando Kumai entrou assustado na cabine. O Dançarino se encantou com a forma com quê os cabelos de Harumi, pela primeira vez soltos, escorriam por seu ombro da mesma forma que a água quente escorria por seus pés. A pele clara da elfa parecia brilhar diante da luz tênue da fornalha que iluminava toda a cabine. E seus olhos não escondiam o desconforto que a presença do bardo lhe causou.
É falta de educação entrar sem bater. E ficar me observando com esses olhos arregalados também não é nada delicado. Por quê a pressa afinal de contas? Harumi falava num tom de escárnio tentando convencer a si mesma que o pressentimento que sentiu durante seus sonhos não passava de um pressentimento.
Algo está voando em nossa direção, provavelmente um Assírio. Franco pediu pra você dirigir a nave. E acho que ele vai precisar da nossa ajuda…
Harumi praguejou contra sua intuição, e pediu aos seus ancestrais Bayushi, talvez inconscientemente, talvez mais por desabafo do quê como um verdadeiro pedido, que não tivesse mais premonições assim. Amarrou o cabelo rapidamente e correu ao convés do Fallacia com seus sai pendurados entre as dobras de um kimono de seda esvoaçante.
Brisa acordou logo em seguida assustado, tentando entender o quê ocorria a sua volta.
Acorde rapaz, teremos problemas… eu vou assim que terminar com esta fornalha Kumai riscava, às pressas, símbolos sagrados no chão enquanto murmurava a saudação a Xangô. Brisa levantou o escudo remendado, a lança e correu para o convés prometendo a si mesmo que desta vez ele não seria um completo inútil, seja quem fosse o inimigo.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------
Franco subiu ao topo e calculou que o Wyvern estaria se lançando contra o balão em alguns segundos. Enrolou a perna em volta de uma das cordas que sustentavam o peso da nave e pediu que a deusa emprestasse sua força às amarras para que este não caísse e sua pureza à espada, para que pudesse ferir o morto vivo. Empunhou a arma e esperou o choque inicial. A espera de um ataque de carga é sempre angustiante, pois o defensor sabe que vai doer, e muito, mas sua única chance de êxito é aguardar e se mover apenas na hora exata. Mesmo que isso signifique ficar impassível diante de um Wyvern voando em sua direção.
Voz da Terra atirava contra o monstro na esperança de parar seu ataque, porém o volume de ar que suas asas moviam, impedia que as flechas do elfo o atingissem, mesmo a elemental do ar não podia ultrapassar a barreira. Voz da Terra, mais uma vez, engoliu a frustração e procurou estar preparado pra quando o monstro estivesse vulnerável.
Franco já podia ouvir as asas do réptil e seus olhos fitavam os olhos do cavaleiro, seus pés vacilantes procuravam manter alguma firmeza no piso flácido do balão e as canecas de cerveja que havia tomado faziam com que seus músculos respondessem aos seus comandos de forma atrasada e fraca. Deu um passo à frente e sentiu seu peso deformando o balão. O Wyvern parou de bater as asas e mergulhou com as garras em direção ao alvo. Franco deu mais um passo hesitante e se pôs, resignado entre a fera e a nave.
Deusa…
O Guincho da fera ardeu nos ouvidos do Paladino enquanto este caía em direção à escuridão. A corda o segurava de ponta cabeça ao lado do balão e as setas da besta caiam de sua aljava. Franco juntou coragem e numa fração de segundos, olhou pra própria mão e viu que esta estava inteira, apesar de sua espada estar cravada na pata esquerda do dragão. O golpe fez com que a besta perdesse o controle do vôo e mudasse de direção, salvando o Fallacia. Mas em questão de segundos ela faria meia volta e retornaria para uma nova investida. Harumi segurou o timão da embarcação e tentou se concentrar nos movimentos da fera, sabia que as hélices podiam mudar rapidamente a nave de direção e contava com isso para salvar a vida de todos.
A criatura deu a volta e seguiu por baixo do Fallacia, Voz da Terra preparava a flecha mas não tinha ângulo para acertá-la, pois a mesma estava protegida pelo casco do Fallacia. O Cavaleiro ficou de pé sobre as costas do Wyvern e agarrou uma das bordas da nave, precipitando-se pra dentro do convés.
Franco, ainda pendurado de ponta cabeça, sacou a besta e mirou na cabeça do assírio, mas o Wyvern parecia um perigo maior. Só lhe sobrara uma única seta que estava armada a besta e Franco tinha de escolher bem seu alvo, esticou o máximo que pode seu braço e tentou mirar na direção de onde imaginou que o Wyvern surgiria quando subisse novamente.
Voz da Terra atirou duas, três flechas contra o morto vivo, que penetravam sua carne, mas pouco efeito tinham sobre o mesmo. O Gigante sacou uma cimitarra de mais de um metro e meio de comprimento, coberta de ferrugem e sangue seco e armou um golpe contra o tecido do balão, mas um jato de chamas irrompeu de trás do Xamã e acertou o peito do inimigo, que vacilou e deu alguns passos pra trás.
Tira essa espada dele, se eles furarem…
Kumai foi interrompido por um solavanco que o arremessou contra o apoio da nave, praticamente o jogando pra fora. Harumi havia manobrado violentamente para tirar o balão do alcance do segundo ataque do Wyvern, que grunhiu furiosamente e preparou meia volta para uma terceira investida.
O Árabe tentou se recompor quando Kumai acertou um chute no seu pulso, fazendo com que a cimitarra voasse a alguns metros no convés. O Gigante levantou os braços na direção do Filho de Xangô para esmagá-lo, mas quatro flechas em sequência se cravaram em seu rosto fazendo com que este recuasse novamente, dando chance de Kumai saltar pra longe de seu alcance.
Brisa observou a situação e o desespero tomou sua mente. Mesmo lutando em conjunto, cedo ou tarde seriam vencidos. Forçou sua mente a pensar como soldado e tentar achar uma forma de sair daquela situação, observou atrás do morto vivo, no chão do convés, um rolo de corda que segurava a âncora do Fallacia quando este tinha que ficar preso ao chão. Era uma idéia arriscada mas poderia dar certo.
Me consigam uma distração!
Kumai titubeou mas decidiu confiar no meio avariel, encher as mãos com duas bolas de fogo e arremessou no rosto do morto vivo... aproximando-se o suficiente para que o mesmo pudesse agarrá-lo. O gigante estendeu as mãos em direção a Kumai e caminhou em sua direção.


Assírio Morto-vivo



quarta-feira, junho 04, 2003

 
Dançando nas Nuvens

Era tarde da noite do segundo dia de vôo no Fallacia. Franco e Harumi revezavam o comando, alternando turnos de sono com turnos na direção. O Paladino dirigia despreocupadamente a nave enquanto bebia uma caneca de cerveja que Kumai havia lhe oferecido. Voz da Terra havia desistido da idéia de beber ao aproximar a caneca de seu nariz e sentir o cheiro forte da bebida, acabando por permanecer no convés apenas observando a noite estrelada e sem lua
Voz da Terra eu queria te fazer uma pergunta, aliás duas, se me permite. Qual seu verdadeiro nome? Não sei muito sobre elfos, mas sei que vocês dão nomes as suas famílias como nós humanos.
A cerveja fazia com que as palavras fluíssem mais fácil e despreocupadamente. Kumai tocava em seu berimbau algo leve, e seu canto passava um tom de solidão e saudades, apesar de estar em sua língua natal.
Yamitingarê. família de Voz tinha este nome por causa de noites que lua brilha cheia no céu. Quando a luz vem presentear os meus com conhecimento e força
Voz sentia-se por algum motivo, próximo àquelas pessoas. Imaginava que há alguns dias antes, teria respondido de forma seca e breve, para evitar o contato. Talvez os espíritos soubessem o que faziam quando lhe mandaram ensinar alguém. Havia aprendizados para o Aíbayuri. E a proximidade fazia com que este sentisse mais vontade de tentar entender o que os companheiros esperavam quando perguntavam algo, em vez de simplesmente dar a resposta que daria a um espírito.
Mortais e Espíritos esperavam coisas muito diferentes de sua existência.
Mortais e espíritos esperavam respostas diferentes quando faziam uma pergunta a alguém.
Meus familiares elfos me chamavam de Teremguá, mas este nome não cabe mais. Sou mensageiro dos espíritos da natureza, por isso sou Voz da Terra. E este nome é o nome mais verdadeiro que posso ser chamado
Que seja Voz da Terra. Mas me diga, por quê não lutou contra o escorpião no dia em que Gravsten morreu?
Aquela luta era sua, não minha.
Como minha? O Escorpião já havia destruído diversos Assírios, e teria destruído todos nós se Kumai não tivesse dado cabo dele com sua bruxaria.
Bruxaria não... são os favores dos Orixás.
Kumai parou de tocar e rosnou pra Franco e sua ignorância.
Chame como quiser. Não conheço os deuses de sua gente.
O escorpião é totem seu, totem caprichoso. Se não volta veneno contra outros, volta contra si mesmo. E você era o alvo.
Não entendo o que diz quando fala em totem. Mas afinal o que queria ele comigo?
Provar se você merece a benção. Se você sobrevive ao ataque, merece.
E qual seria a benção que recebi deste escorpião?
Franco tentava tomar cuidado com as palavras, pois achava tudo aquilo um absurdo, mas não queria ofender a crença do elfo.
A forma como pensa, como critica coisas em volta. Culpa e agressividade. São presentes do escorpião.
Mas eu sou assim desde que me lembro, desde a mais tenra idade.
O Escorpião te acompanha desde que nasceu.
Então ele sempre me acompanhou e só quis me testar agora?
Sim.
Voz sorria das perguntas de Franco, como se fosse uma criança que não entende o mais básico da vida. Perguntava coisas que Voz sabia desde sempre. Será que nenhum humano era perceptivo a questões espirituais? Será que só elfos eram? Será que os únicos xamãs eram ele e Brisa?
Um ruído distante alcançou os ouvidos de Voz que fez sinal com a mão, pedindo silêncio.
Kumai sentiu algo estranho no ar e deu um leve assopro em direção a um lampião que fez com quê todos os lampiões da nave apagassem, na esperança de quê na escuridão, a embarcação passasse desapercebida. Franco sacou a Besta pesada e armou um virote procurando algum alvo na escuridão, mas seus olhos de humano não podiam ver apenas com a tênue luz das estrelas como faziam os do elfo.
O Xamã subiu no apoio do Fallacia forçou ao máximo seus olhos tentando observar algo na escuridão. Ouvia barulho de asas fortes e pesadas. Definitivamente não era um pássaro. Mesmo um pássaro grande como uma harpia ou um condor não fariam um barulho tão forte.
Sentiu-se tentado a pedir ajuda de um espírito, mas não sabia como os espíritos reagiriam, afinal, ele havia sido escolhido para ensinar Brisa, portanto era, em parte, culpado pelo crime de seu aprendiz.
Arriscou pedir auxílio a um espírito familiar, a pequena sílfide que guiava suas flechas. Assobiou um chamado e deixou sua mente livre para que a elemental do ar se comunicasse com ele. A resposta da sílfide foi breve e contundente. Voz sentiu que seria ajudado, pois os espíritos deviam algo a ele. Mas a Pequena elemental deixou-lhe claro que o pedido de perdão de Brisa não poderia se demorar mais nem um dia.
Voz consentiu que faria o garoto fazer este ritual o mais breve possível. E a elemental do ar voou para conseguir a informação que o elfo desejava.
Voz da Terra recebeu em sua mente palavras aleatórias e uma breve imagem. Um lagarto alado com um gigante nas costas. O gigante era sem dúvida um Assírio, mas tinha as feições sombrias, pele seca e enrugada, e não tinha uma parte do rosto.
Alguém acorde Harumi e Brisa. Nós teremos problemas…
Kumai correu pra dentro da cabine enquanto murmurava a saudação a Xangô, pedindo auxílio na batalha e força. Franco esbravejou contra o Aíbayuri.
Afinal, o quê você viu elfo?
Um morto sobre uma fera. Não vão atacar diretamente, só querem furar o balão. Aqui em cima, somos presa fácil.
Então eu vou lá em cima proteger o balão. Peça pra Harumi dirigir a nave.
Franco desprendeu rapidamente sua armadura, ficando apenas com a proteção de algodão cru e couro que forrava a cota de placas. Prendeu firme a besta nas costas, a espada no cinto e começou a subir em direção a escuridão da noite sem lua.



Wyvern


segunda-feira, maio 19, 2003

 
Fallacia

Gnomos são seres de outro mundo.
O Implemento que havíamos conseguido com o truque de Brisa era um grande barco pendurado num balão. De acordo com os Gnomos, aquilo poderia voar a uma certa velocidade, mas com certeza iria alcançar o cavalo do Assírio, pois poderia continuar voando mesmo enquanto nós dormíamos, e teríamos de parar apenas ocasionalmente para conseguir comida e lenha.
Tivemos de passar dois dias nos preparando pra viagem, Franco Gastou suas últimas peças de ouro com acomodações para todos nós e mantimentos, além de gastos com os curandeiros locais. Tanto o Paladino quanto a bela Elfa Dourada se dispuseram a aprender a manejar a nave, que foi batizada de Fallacia. Acredito que queira dizer alguma coisa na língua dos Avariel pais de Brisa. Ainda assim, o garoto não parecia nada contente com sua vitória.
Já eu? Bem, com dois dias livres e sem ninguém no grupo desocupado pra poder me fazer companhia, senti-me obrigado a dar algumas voltas pela cidade pra conhecer melhor os Gnomos. A princípio procurei por mulheres, dança e bebida, mas, infelizmente, tive de me contentar apenas com os dois últimos. Não que eu tivesse algum problema com mulheres pequenas, pelo contrário, já tive mulheres de todas as cores, raças e tamanhos. Me atraí muito mais cheiros do quê aparência, mas as Gnomas aparentemente não se vendem a estrangeiros, ou talvez o problema seja apenas com humanos. Realmente não fiquei pra descobrir. Voltei pra estalagem no primeiro dia com bem mais ouro do quê todas as economias de Franco juntas. Afinal, se as dele estavam acabando alguém teria de bancar a viagem não? Mani me ajudou a coletar e contar as moedas enquanto eu me recuperava da bebedeira e me preparava para o segundo dia de trabalho. Porém a vagabunda me encontrou primeiro. Desde que fugi de Obaia, minha cidade natal no continente negro, eu senti que eles não iam me deixar em paz. Claro que Pai Ereauê abusou dos pobres coitados, mas eu realmente, sinceramente não havia feito NADA ainda. Droga! Não havia cometido os crimes que os outros filhos de santo são acusados, não tinha nem tido tempo pra me acostumar e abusar do poder.
Quando cheguei na taverna, ela estava lá, brincando com um cacho de uvas enquanto sorria pra mim com aquela maldita expressão de “peguei você rapaz”. Eu sentei assustado, não podia sair naquele momento pois ela me seguiria e me mataria, mas também não podia simplesmente ficar sentado esperando até a noite acabar, os bêbados estarem dormindo e ela vir atrás de mim e me matar de uma forma ainda pior.
Yá Kamorodé era uma filha de Oxossi que havia se especializado em caçar cabeças, e tinha um faro sobrenatural para perseguir fugitivos. Eu imaginei que haveriam de enviar alguém atrás de mim, mas não que eu era tão importante ou perigoso pra enviarem justo ela.
Que motivo idiota pra me sentir importante.
Cochichei alguma coisa no ouvido de Mani e tentei a idéia mais batida que eu lembrei na hora, começar uma briga. Yá Kamorodé era extremamente inteligente e não cairia fácil neste truque. Levantei o berimbau e bati nas costas de um sujeito bêbado, de modo que o golpe viesse de outra direção, calculei que o bêbado iria virar e acertar um soco em seu companheiro sem se preocupar em verificar de onde veio o golpe ou por quê. Nesse ponto eu tinha uma vantagem pis com certeza havia freqüentado mais bares e conhecia mais o comportamento dos bêbados que a caçadora.
Ela percebeu meu truque e caminhou em direção a porta. obviamente ela não perderia o seu tempo passando no meio da confusão, entre os brigões, pra me alcançar, sabendo exatamente pó onde eu tentaria fugir.
Mani fez sua parte e derrubou um barril de vinho no chão pra aumentar a confusão, eu murmurei algumas palavras a Xangô que apagou a chama das tochas. No escuro, corri como nunca e fiz a última coisa que a filha de Oxossi esperava de mim, mergulhei no buraco que levava a fossa da taverna, saindo mais adiante, coberto de dejetos dos pés a cabeça, na fossa da casa vizinha.
Mani me alcançou no caminho e corremos pela noite, enquanto eu tinha certeza que dentro em breve ele perceberia que eu não estava mais dentro da taverna escura. Vamos embora amanhã e eu realmente peço que Oxalá, Xangô e todos os santos impeçam que ela me alcance antes.
As moedas que coletei nesta cidade ao menos vão nos manter na viagem por mais algum tempo, e quem sabe, impedir que ela arranque meu coração quando e se finalmente, um dia me pegar.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Franco terminou de arrumar os mantimentos no Fallacia e suspirou cansado enquanto limpava as gotas de suor que insistiam em rolar de sua testa. Voz da Terra alimentava a fornalha e assobiava. Franco estranhava como os assobios do elfo lhe pareciam sempre mais do quê canções, quase como se ele conversasse através deles. Talvez isto explicasse por quê o Elfo não falava língua de humanos direito, talvez só sentisse a vontade quando se expressava através de assobios.
Brisa havia se tornado extremamente solícito, quase como se o Meio Avariel estivesse agindo como um serviçal dos companheiros, ajudou Kumai a carregar dois barris de cerveja de boa qualidade sem reclamar e ainda cortava lenha para que Voz da Terra não cansasse os braços.
Kumai havia retornado de sua segunda noite bastante assustado e quieto, passou horas tomando banho antes de dormir e não saiu de casa antes que tivessem dito que a nave estava prestes a partir. Ainda assim, cobriu-se com um longo manto feito ás pressas com as cobertas do local onde dormiram, e Mani seguiu a frente vigiando o caminho.
Após Fallacia estar completamente carregado, Harumi comparou mapas de navegação com as suas próprias anotações de como funcionava a nave, e tentou traçar um planejamento, gritava ordens aos companheiros enquanto ela mesma manejava o leme que daria direção a nave.
Franco, faça as hélices girarem, Kumai, desamarre os laços, essa rajada de vento vai ser o suficiente pra dar o impulso necessário pra seguir viagem
Assim que Kumai soltou as amarras, o Fallacia começou a subir lentamente, passando pelas torres fumacentas dos Gnomos e ganhando os céus, as hélices movidas a vapor faziam com quê a nave voasse adiante enquanto o balão de ar quente fazia com que a nave subisse cada vez mais alto. Enquanto olhavam a cidade se distanciando, alguns imaginavam que esta era a sensação que os cavaleiros de Grifo ou os pássaros tinham. Brisa sentia que estava bem mais próximo de seus parentes Avariel, e Kumai via a cidade com o alívio momentâneo de uma presa que acaba de escapar de seu predador natural.



Yá Kamorodé



Fallacia




sábado, maio 03, 2003

 
Crime

Brisa sentiu-se satisfeito quando o capitão Gnomo aceitou o acordo, porém, em poucos segundos, sentiu-se como uma criança que havia feito algo muito errado. Os olhos de Voz da Terra lançavam faíscas de desprezo. Era tarde pra voltar atrás. Brisa procurou com os olhos uma fonte de fogo que pudesse se concentrar. Os soldados Gnomos curiosos o guiaram pela mão até uma forja próxima onde labaredas crepitavam e iluminavam todo o ambiente, e permitiam que todos observassem o show.
Brisa fechou os olhos e estendeu as mãos, sentindo o calor intenso do fogo. Era como se já tivesse feito isto antes, talvez quando muito pequeno ou em outra vida. Mas estava extremamente à vontade e familiar com a situação. Tentou murmurar palavras suaves para chamar o espírito do fogo, contudo, estas não foram respondidas. Caminhou em círculos durante alguns segundos, tentando raciocinar como deveria fazê-lo. O Fogo não é uma criatura viva como a cobra ou o morcego, natural que não respondesse a palavras. Teria de entrar em sintonia com o espírito de alguma forma.
Uma oferta, como a tatuagem para Sisisnay, parecia pouco apropriada neste momento, Talvez uma grande fogueira, mas se a própria forja não o fazia manifestar-se, o que poderia Brisa queimar? Não, não era esse o caminho.
Brisa sentiu-se incomodado com os olhares ansiosos dos companheiros de viagem e dos Gnomos, o fitavam como se esperassem um grande milagre ou uma chuva de luzes piscantes banhando o céu. Não podia culpá-los, afinal, em um de seus momentos de insanidade havia realmente prometido isto a eles. Brisa decidiu que se fosse alcançar, o que quer que fosse, teria de alcançar sozinho. Começou a entoar um cântico baixinho, oração dos seguidores de Aerdrie Faenya, e concentrou-se nele até que seus sentidos relaxassem a ponto de brisa esquecer que estava rodeado de outras pessoas, e que sua mente pudesse viajar livre para onde realmente ficavam guardadas as respostas.
Fogo, aquece minha comida e afasta meus inimigos. Transforma madeira em carvão, barro em cerâmica. Difícil de ser controlado. Paixão arde como fogo.
As idéias iam invadindo a mente de Brisa que as cavalgava sem pudor. Talvez as palavras não pudessem chamá-lo, mas alguns sentimentos sim.
As surras que levava dos Avariel quando era pequeno. Seu coração ardia como a fúria do fogo. A doçura de algumas Avariel que dançavam ao sabor do vento fazia Brisa sentir seu estômago em fogo, mas um fogo diferente, ardente e instigante.
Brisa não soube quanto tempo passou dessa forma, mas a cada lembrança, sentia-se mais próximo do fogo, podia entender o fogo. Sem perceber quando ou porquê, caminhava numa caverna iluminada por grandes fogueiras. Caminhou até encontrar um pequeno lagarto de fogo que pulava e dançava ao som das labaredas queimando sob um forno semelhante a uma pira de cremação. Brisa havia alcançado o entendimento que buscava.
Eu saúdo o espírito do fogo

O lagarto continuava ignorando Brisa e rodopiando em torno de si mesmo, como se mal houvesse notado sua presença.
Venho pedir que fortaleça com seu calor uma forja dos gnomos. Esse favor pode impedir um grande conflito. Pode impedir que Assírios controlem grandes centros de magia

Seus assuntos não nos dizem respeito. Vocês controlam os meus com suas fornalhas. Não precisam ir além.

Os Gnomos precisam dessa força para acelerar a construção de suas armas e se defender dos…

As chamas tornaram-se mais fortes e poderosas e praticamente engoliram Brisa que recuou alguns passos. O pequeno lagarto rastejou pra fora do forno e começou a rodopiar em torno de Brisa.
Saia de meus domínios, bastardo. Não me importo com seus problemas e não desejo ajudá-los de forma alguma.

As palavras do lagarto subiram a cabeça de Brisa e o atingiram como um golpe bem dado no queixo. Já tinha aberto mão de muito de sua razão e estava lado a lado com suas paixões mais explosivas, de modo que pudesse se comunicar com o espírito em seus próprios termos. Em outra situação, Brisa teria se controlado, mas naquele momento havia apenas uma opção.
Verme egoísta, não desci até aqui para ouvir suas ofensas, me aproximei da forma mais cordial possível.

Sua cordialidade é tão bem vinda quanto o sangue misturado e sujo que corre em suas veias.

As chamas que Brisa acendeu em seu coração explodiram e tornaram-se tão quentes e incontroláveis quanto o fogo que queimava a sua volta, numa fração de segundos, seu desejo se tornou verdade absoluta, e aquele que ia contra sua vontade se tornara um obstáculo a ser ultrapassado e destruído.
Brisa deu um passo a frente e sua vontade superou a força do lagarto, que deu um ganido baixo e se moveu lentamente de volta ao forno, deitou a cabeça sobre os próprios braços e adormeceu rapidamente.
Brisa sorriu ao perceber que de certa forma, havia vencido uma batalha espiritual, havia conseguido fazer o lagarto recuar e este agora estava indefeso. Haveria alguma forma de prender o lagarto de fogo ao forno e completar o fetiche que desejava.
Brisa mais uma vez fechou os olhos e procurou as respostas dentro de si mesmo, e as encontrou. A tradição xamânica, por bem ou por mal, estava bem enraizada na memória de seu espírito e Brisa sentia que sabia como fazê-lo. Ajoelhou-se próximo ao lagarto adormecido e sussurrou.
Faz da tua morada esta forja e empresta teu calor e vida ao fogo que aqui for aceso. Permita que os Gnomos manipulem este instrumento e se beneficiem de seus serviços.

Dada a ordem, Brisa sentiu que nada mais havia a ser feito. As paixões confusas em seu coração foram se acalmando e Brisa se viu mais uma vez entre os companheiros de viagem, ainda na mesma posição, com as mãos estendidas em direção a forja e com gnomos observando. Não conseguiu calcular quanto tempo havia ficado em transe. Quanto tempo sua viagem xamânica durou.
O fogo da forja ardia intensamente, indicando que o fetiche estava funcionando, os gnomos riam e pulavam se cumprimentando como se tivessem visto um grande espetáculo.
Brisa voltou os olhos para Voz da Terra buscando algum tipo de aprovação, esperando que o sucesso que obteve pudesse anular qualquer erro que provavelmente tivesse cometido, mas não houve aprovação do Aíbayuri.

Tire esse sorriso idiota do rosto. A satisfação que você esta sentindo é tão válida quanto à de um Orc que estuprou um garotinho de 7 anos de idade. Está intoxicado pelo poder? e agora o quê vai ser? Aprisionar pequenos espíritos e vender na feira? A pequena salamandra de fogo que você violou não tinha a mínima chance de se pôr contra você. Se o quê quer é tornar-se um feiticeiro obcecado por poder, faça, mas não conte comigo. Se ainda houver um mínimo de bom senso e humildade nessa sua cabeça de vento estúpida... você ainda tem alguma chance. Os espíritos são vingativos, mas perdoam os criminosos que se arrependem.

Eu não imaginei que estivesse fazendo algo tão errado... eu não pude me controlar... eu não sei...

Brisa mentia pro Aíbayuri e pra si mesmo, sabia que as coisas não funcionavam assim, mas naquele momento, acreditava que os fins justificariam os meios e que tudo daria certo.
Nada se consegue de graça, se você pede um favor, você tem que oferecer algo em troca... dar ordens à força é digno de ogros. Não de um xamã... se quer tentar aliviar as coisas de alguma forma, terá que pagar aos espíritos pelo crime que cometeu.

E como eu posso pagar?

Eu não posso saber, terá de perguntar diretamente a eles...
Kumai e Franco, que não entendiam uma palavra de élfico, não conseguiam compreender o porquê da rispidez de Voz da Terra, afinal o truque de brisa havia dado certo e eles conseguiram o que queriam. Porquê afinal de contas o Elfo estava ralhando com brisa?
Brisa, abaixou a mão procurando a figura sempre acolhedora de Furioso, mas o cão não estava mais lá.. procurou com os olhos o Morcego Tzotl que sempre sobrevoava por perto, mas este também não estava. Murmurou o chamado a Sisisnay tentando pedir auxílio de sua aliada no mundo espiritual, mas esta também não veio.
Brisa era um degredado na aldeia de onde veio, e só possuía a companhia dos espíritos, mas agora, sentia-se só de uma forma que nunca havia sentido até então.
Pois bem Rapaz, você fez seu feito. Sou um homem de palavra e lhe darei o implemento que pediu, mas mantenham-no longe de mãos erradas, por favor! .

Dois soldados Gnomos fizeram um aceno para que os companheiros os seguissem, seguindo por um corredor que os levava aquilo que vieram buscar.





Espírito de fogo




quinta-feira, abril 10, 2003

 
Hameauprutser

O céu estava vermelho e sedutor quando chegaram na vila dos Gnomos. Diferente das tocas na terra e dos pequenos seres sorridentes e acolhedores que esperavam. Os viajantes encontraram muros de pedra e ferro que insinuavam uma fortaleza que começava na superfície e, possivelmente, cobriria boa parte dos subterrâneos abaixo de seus pés.
Voz da Terra inalou o ar quando já podiam avistar, ao longe, os olhos dos soldados que protegiam o portão. O cheiro do lugar lhe trazia recordações ruins da masmorra, ferro fundido, carvão e fumaça. Este lugar soava como um campo de batalha onde a natureza perdia espaço pra uma construção feita por mãos de gnomo. Podia sentir nos pêlos do braço os gemidos das forças da natureza, mas também podia ouvir o suspirar de espíritos abstratos demais pra ele. Voz da Terra fechou os olhos e pediu pra não sentir mais nada até que pudesse se afastar daquele lugar esmagador.
Franco Castela estendeu os dedos para sentir se haviam emanações do mal naquela cidade, e gostou do que sentiu. Os Gnomos eram conhecidos por suas criações curiosas, dignas das mais entorpecidas mentes dos gênios humanos. Eram um povo religioso, que seguia o ensinamentos de Zarkan, ainda que o chamassem por seu próprio nome gnômico. Zarkan era um deus caprichoso que incentivava que nada permanecesse da forma como a natureza o criou, incentivava que nenhum ser deveria se contentar com aquilo que recebia, que a inteligência aplicada ao talento tornavam-se o diferencial entre aqueles que sobreviveriam no mundo, e aqueles que se tornariam presas.
Não, os Gnomos não eram predadores, mas, usavam de seus talentos para transformar ferro em rodas, alavancas, pesquisavam conhecimentos que beiravam a magia, e faziam carros andarem alimentando-os com água quente, fogo e vapor. Suas armas mal podiam ser reconhecidas como tal, pois nem sempre apresentavam lâminas.
Para Brisa, tudo era novo. O contraste entre a reclusa vila gnômica e os portões abertos e convidativos de Mirastey o faziam cogitar o quanto conhecia pouco do mundo. Afagou a cabeça de Furioso que também não apreciou o cheiro, e segurou seu pescoço para que este não voltasse por onde veio.
Kumai se adiantou a todos e sorriu, durante os dois dias de viagem, Xangô havia se afastado bastante, e, se pudesse ficar mais algum tempo sem chamar sua atenção, talvez até pudesse voltar ao normal por mais alguns meses.

Eu acho que posso falar com eles com mais facilidade que vocês, eles parecem entretidos demais em seu trabalho pra não se encantar e maravilhar com uma boa história. E afinal de contas o que devemos roubar lá dentro?

Não sei o que é, e realmente não gostaria de entrar na cidade deles planejando rouba-los dessa forma.

Franco levantou a pesada Manopla de ferro que protegia seus dedos e franziu as sobrancelhas

Não vamos roubar nada, nem pense nisso. Estamos numa missão de boa vontade e não gostaria que ninguém aqui se esquecesse, Kumai? Por favor.

Diga que é aliado do clã Grundason…

Eu também quero falar... Não confio em seu bom senso.

Durante os dois dias de viagem, Harumi e Kumai começaram a estabelecer uma amizade curiosa. Uma eterna disputa entre as formas com que Kumai deixava a Elfa sem graça, e a forma como ela tentava ser rude com ele. Mas a cada investida mal sucedida, Kumai sentia-se mais incentivado a brincar com a elfa, tentar se aproximar dela, enquanto a Elfa sentia mais dificuldade em controlar o sorriso diante das palavras do Bardo.

Vem comigo? Sabia que você não pode ficar longe de mim.

Quero ver você sorrir com este berimbau enfiado na orelha…

O casal seguiu por algum tempo, seguidos por Voz da Terra e os irmãos Castela que vinham logo atrás, até que chegaram a poucos passos de distância dos portões da vila, dois soldados Gnomos faziam a guarda, vestidos com curiosas armaduras de aço com diversos outros adornos pendurados. Assemelhavam-se a um grande armário de cozinha onde se pendura talheres e panelas indiscriminadamente, e carregavam pequenos bastões com lâminas e correntes, que Kumai não pode entender como poderiam ser ameaçadores.

Boa tarde rapazes, sou Kumai de Xangô, estamos numa missão diplomática, vindos de Mirastey e gostaríamos de dividir gestos de cooperação e boa vontade com esta bela vila

Harumi olhou para Kumai com profunda desaprovação, como o Bardo podia por tudo a perder com tão poucas palavras?
Kumai, percebendo que devia ter feito algo errado, mas sem saber exatamente o quê, tentou se lembrar se haviam combinado algo, e lembrou do conselho de Brisa.

Ah, e acabamos de vir da cidade dos Anões, o Clã dos Grundason enviou felicitações e votos de boa sorte.

Os soldados se olharam confusos, tentando entender como um enviado da cidade da inquisição estaria vestido de forma tão inadequada, e acompanhado de uma elfa dourada.
Harumi sentiu vontade de arrancar o sorriso do bardo, acostumado a mentir sob qualquer circunstância. Sorriu para os soldados tentando dar uma falsa credibilidade a conversa, e amaldiçoou a si mesma por não ter tentado enfeitiçá-los quando teve chance, agora seria arriscado demais.
Os Soldados prosseguiram com o procedimento de praxe. Apontaram suas armas aos prisioneiros enquanto um deles assoviou em sinal de alerta.
Em poucos momentos, dezenas de escotilhas se abriram nas paredes de ferro e surgiram setas de besta apontando para os visitantes.

Cometemos algum crime, senhores Soldados?

Kumai arregalou os olhos, confuso pela recepção extremamente menos amistosa do quê esperava, e estava acostumado. Ergueu os braços enquanto os portões se abriam e mais Soldados gnômicos armados iam saindo.

Não há crime, mas, em tempos de guerra, todo cuidado é pouco… vocês podem manter suas armas, mas permaneçam com as mesmas guardadas.

O grupo passou pelos portões da cidade enquanto os Gnomos os cercavam. Após as muralhas de ferro cobertas por escadarias e elevadores de corda. Os viajantes puderam ver pequenos traços da genialidade dos Gnomos. Moinhos levando água para todas as casas enquanto a força dessa água é usada para movimentar roldanas. Algumas das casas, provavelmente as mais humildes, foram construídas dentro da terra como tocas, enquanto as maiores se erguiam no céu como grandes torres de aço fumegantes.
As construções estranhas se amontoavam por todos os lados, como se os Gnomos tivessem métodos próprios para desenvolver suas tarefas, desde criar galinhas até construir catapultas.
Os soldados os levaram até um Gnomo, também vestido com armadura completa, que carregava diversos símbolos no peito, provavelmente demonstrando a todos sua bravura em combate ou coisa semelhante.
Estas pessoas dizem ser enviados de Mirastey senhor.

Os Soldados apresentaram os viajantes como se fossem prisioneiros, Voz da Terra cogitou durante alguns segundos puxar o arco e tentar sair dali, mas o Comandante dos Gnomos foi mais rápido.

Desculpem as maneiras, mas estas são necessárias. Sou Sebastien Zuberbuhler, Comandante da brigada de defesa dos portões. Esta é a vila de Hameauprutser. Aceitem meus cumprimentos em nome de Vossa Majestade Zwissyg

Kumai se adiantou para falar, porém Franco acreditou que o momento das mentiras já havia passado. Segurou o ombro do companheiro e se adiantou.

Agradeço sua hospitalidade. Sou Franco Castela de Mirastey. Venho em missão de Paz e peço um auxílio. Precisamos chegar aos longínquos portos do Norte antes que um cavaleiro Assírio o alcance… ele partiu de Zakyno a alguns dias e não teríamos como reconhecê-lo no trajeto. Ouvimos dizer que vocês podem nos ajudar a chegar lá de uma forma mais rápida que um homem viajando a cavalo.

Você é bem direto pra alguém que pede favores… .

Gravsten Grundason nos enviou, disse que vocês lhe deviam algo e que consideraria a dívida quitada se nos ajudasse.

Franco fitou Brisa e iria contradizê-lo, mas novamente o Comandante foi mais rápido.

Pra lhe ser sincero, nós temos meios de levá-lo até lá. Mas infelizmente a dívida que temos com os Grundason não vale tanto. Vocês devem imaginar que instrumentos como estes fazem uma enorme diferença pra qualquer exército, seja para movimentar tropas, seja para espionagem.

Nós estamos dispostos a recompensar seu auxílio de qualquer forma possível que esteja a nosso alcance... em nome da Deusa. Muito está em risco.

Franco fechou os olhos e abaixou a cabeça depositando todas suas esperanças.
Zuberbuhler abriu os braços e sorriu como se dissesse, o quê mais nós podemos querer?

Somos um povo muito isolado como bem sabe... Não acredito que haja muito do mundo de fora que possa nos ofertar, a não ser quê possa fazer com quê o fogo queime mais quente ou que os Assírios esqueçam que um dia existiram Gnomos sobre esta terra.

Brisa refletiu em alguns momentos, lembrando do morcego lhe concedendo seu radar... e Voz da terra assobiando para que suas flechas fossem guiadas pelo vento. Por quê não? Não teria nada a perder...

Sim, eu posso fazer o fogo queimar mais quente!

Não é assim que as coisas funcionam Brisa! Você não vai conseguir o quê pretende... e vai se afundar num poço negro maior do quê você mesmo...

Vou encarar como uma aposta... Aceito o desafio...

Voz da terra cobriu o rosto e suspirou de raiva ao sentir em quê tipo de caminho sem volta Brisa estava se metendo, era seu pupilo e estava querendo torcer as regras antes de conhece-las... Voz da terra não podia cometer os erros em nome de brisa... mas teria e chorar cada lágrima por ele...




Hameauprutser

Um conto sobre duvidas, caminhos e descobertas.

Archives

Companheiros de caminhada

Livro do Destino
Caern da Nicneven
Site do PBEM Alderion
Insanity Thought
Keka, uma reporter
Cacofonia
Maestiter Contristare
I See Butterflies
Drosofila
Lelecameleca



.
Weblog Commenting by HaloScan.com

This page is powered by Blogger. 
Isn't yours?